sexta-feira, janeiro 14, 2011

The Chamber - Revisitando o passado


Texto - Miguel Linhares / Foto - António Araújo

Academia de Juventude da Terceira, 22:00, tempo relativamente calmo com o mar a ficar-se pelo areal. A cidade da Praia da Vitória recebe o primeiro concerto do angrense João Félix no ano de 2011.
Como em quase todos os eventos que se realizam na Terceira, a pontualidade é substituída por um compasso de espera, sendo que 20 minutos foram suficientes para que o jovem João Félix se sentisse confortável para iniciar o seu espectáculo, agora com a pequena Sala Composição com mais público.
Sozinho, utilizando uma Fender Telecaster e com a habitual introversão característica deste artista, o projecto The Chamber é certamente uma viagem no tempo, remetendo-nos para uns longínquos anos 60 e 70 que a maioria do público presente não vivenciou. Assumidamente um admirador de artistas como The Beatles, Bob Dylan, Nick Drake, Jeff Buckley e Oasis, João Félix demonstra claramente na sua música as suas influências e inspirações musicais.
Com uma voz colocada, natural e sem exageros técnicos, João Félix complementa as melodias com a guitarra e, ocasionalmente, a harmónica, instrumentos que domina relativamente bem e que vem progredindo a cada espectáculo.
Foram, aproximadamente, oito os temas originais oferecidos às quase trinta pessoas presentes na sala, entre os quais o já habitual “Mary Jane” e o tema que dá nome ao projecto, mas também alguns temas compostos mais recentemente. Desta vez João Félix deixou de fora do setlist o tema “A poison tree”, tema superiormente composto por ele, tendo como letra um poema de William Blake e que na sua página oficial – www.myspace.com/jooflix - lidera claramente a lista de audições dos visitantes.
Depois de quase uma hora de concerto, o jovem artista fechou a noite com um cover dos The Smiths, “There is a light that never goes out”, deixando uma aparente satisfação geral no público que agora chegava às 30 pessoas.
Após o final do concerto – e como se de um intervalo se tratasse - João Félix acabou por voltar ao palco para tocar mais alguns temas, por vezes a pedido directo de alguns elementos do público. Tocou novamente alguns dos temas originais, visitou pela 2ª vez os The Smiths e prestou homenagem aos Oásis e a Jeff Buckley. Acabou por ficar em palco quase uma hora e meia, fazendo deste um concerto verdadeiramente intimista!
Sempre de poucas, mas directas, palavras, João Félix provou novamente ser um artista com uma sensibilidade musical muito apurada e notoriamente destacada da generalidade da sua geração. Agora a viver em Lisboa, por motivos académicos, João Félix terá com certeza um contacto mais refinado com a realidade musical nacional, podendo daqui advir uma evolução positiva nas suas composições.
Fica mais uma vez a vontade de ver o artista acompanhado por uma banda, passo que certamente dará quando achar oportuno. Enquanto tal não acontecer, as palmas e os elogios vão inteiramente para ele.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Resposta Simples apresentam-nos a sua Mãe Terra

Texto - Miguel de Aguiar / Foto - Academia de Juventude da Terceira

É com o 7” EP “Gaia” lançado a 20 de Dezembro pela Juicy Records que os Resposta Simples voltam ao ataque após o lançamento do álbum “Sonho Peregrino” editado em 2008. Gaia é o primeiro vinil Punk a ser editado nos Açores e apesar de parecer estranho o lançamento de vinis nos dias que correm em que o formato digital está já enraizado no mercado musical os punkers terceirenses seguem, segundo Paulo Lemos, uma linha de continuidade musical própria das bandas de Punk Hardcore. Para trás fica um álbum, dois EP’s, uma demo e várias participações em compilações, não menos importante foi o reconhecimento como banda “Novo Talento” pelo site Musica Total e ainda a participação em 2005 no concurso de bandas de Vila Real tendo sido apurados para actuar na Queima das Fitas de Vila Real, partilhando o palco com os Blasted Mechanism. Desde 2005 a banda tem tentado contrariar o que seria de esperar e conseguiram quebrar as barreiras da insularidade sendo mesmo aclamados como um dos colectivos mais reconhecidos do panorama açoriano no continente pela revista Loud!.

“Matiné de Natal” no passado dia 26 de Dezembro foi o pretexto para o trio angrense apresentar-nos o seu novo registo num concerto ao vivo fazendo-se acompanhar pelo colectivo System Failure. Um evento que contou com o apoio da Associação Cultural Burra de Milho mostrando assim que o que muitos consideram “barulho” também deve ser considerado cultura e merece todo o respeito e apoio. A Academia da Juventude da Ilha Terceira foi o espaço que acolheu esta iniciativa, situado na cidade de Praia da Vitória este é um novo recinto polivalente que tem como principal objectivo a promoção do empreendedorismo e da criatividade.

Por volta das 16 horas, uma hora mais tarde do que o previsto, deram inicio às hostilidades os System Failure com a projecção de um vídeo filmado durante a ECO 92 - Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento em que Severn Suzuki da Organização das Crianças em Defesa do Meio Ambiente apelou para a consciencialização dos actos sobre o meio ambiente. Atribulados por um pequeno imprevisto de ordem técnica, o colectivo liderado por Rui Reis inicia o seu concerto um pouco retraído com o tema Old Times de RAMP. Não, os System Failure não são uma banda de covers e como tal deveriam ter começado com um dos seus vários temas originais, nota negativa neste aspecto. The Idiot, ironicamente dedicado a George Bush, Lost Gun marcado pelo cumprimento sentido entre Rui Reis e Paulo Silva (ex vocalista da banda) e Magister Mundi Sum foram os temas que nos levaram até metade do concerto sendo este último numa toada mais calma perfeito para o registo vocal do frontman. Golden Age dos germânicos Kreator foi o tema que se seguiu, mais uma cover bem executada pelo quinteto angrense que nos levou até ao final da sua actuação com mais três temas originais a variar entre o Hard Rock e o Heavy Metal. A destacar a presença e performance do guitarrista solo Artur Reis que se tem vindo a soltar nas últimas actuações e do já veterano vocalista que nos tem acostumado já com a sua irreverência e atitude sem vergonha em palco.

“Esta cultura de nada te serve minha amada, encontra em mim o conforto a que me obrigas”, são as palavras que se podem ouvir em “Sem Cura” tema retirado do novo EP e que serviu de guia para o videoclip que os Resposta Simples nos apresentaram. Com produção a cargo de Tiago Castro e Fábio Couto (baixista da banda), o vídeo sensibiliza-nos para uma consciencialização ambiental desvanecida por um capitalismo desenfreado, temática abordada em “Gaia”.

Das 11 malhas de puro Punk Hardcore da velha escola cantadas na nossa língua mãe “Relações Cortadas” deu o mote inicial para uma actuação que havia de percorrer todos os registos discográficos do trio com excepção ao EP de 2004 “Teatro da Vida”. Para além da interpretação na íntegra do novo EP os Resposta Simples deram especial evidência para o seu album “Sonho Peregrino” de onde se destacou “Genocidio Cultural” e “Descanso Eterno”. Descanso foi o que Paulo Lemos não teve e foi bem notório ao longo de um concerto que poderia ter sido mais frenético do que aquele que assistimos muito possivelmente retraidos pelo público local estático que continua parecer não ser muito apreciador desde género musical. Neste aspecto nota menos positiva vai para Fábio Couto que não se soltou como seria de esperar. O setlist contou ainda com “Revolução Pessoal”, “Atitude (Começar de Novo)” e “Neglicência” retirado da primeira demo-tape e dedicada ao seu compositor – João Pedro ex guitarrista da banda. Foram estes os temas que nos guiaram ao fim, e foi para o fim que o melhor ficou guardado, “Muro da Banalidade – Gaia” é sem dúvida o melhor tema de “Gaia” e contou com a participação de Phillipa Cardoso no entanto foi pena este tema não ter sido interpretado como no disco com a adição de didgeridoo e de percussão extra – instrumentos do mundo que fazem deste um tema do mundo. Faltou um encore a pedido do público que poderia ter sido o último tema tocado no entanto foi bem visivel que os Resposta Simples tinham dado por terminada a sua actuação.

O recinto, o som e as entradas pagas merecem nota positiva. Um espaço moderno e bastante agradável que nos disponibiliza uma sala com boa acústica e material de som suficiente para se ouvir bem alto o que por lá se toca fazem deste provavelmente o melhor recinto na actualidade na ilha Terceira para eventos deste género e espero que seja bem aproveitado e que sejam dadas oportunidades aos artistas locais de o usufruirem. As entradas cobradas são sem dúvida algo a que os terceirenses devem começar a habituar-se. É completamente impossivel para uma banda gravar e editar um disco em troca de cerveja, como tal é necessário criar meios financeiros que o tornem possivel. Algo que o público terceirense tem que se começar a habituar também é à hora de inicio dos eventos. Neste aspecto o dedo deverá ser apontado às organizações e esta não escapa e como tal merece nota negativa. Enquanto os eventos tiverem uma hora de atraso, a grande maioria das vezes propositada na esperança de que o recinto fique mais bem composto, o público nunca se irá habituar à pontualidade. Por falar em público, o que é feito daqueles que passam a vida a reclamar que nunca se faz nada por cá e quando há um evento como o do lançamento do EP dos Resposta Simples estes não estão presentes? Terá sido pelo dia e hora escolhidos? Talvez, mas a festa de lançamento de um disco não sucede com muita frequência por cá e se não forem as pessoas ligadas a este meio que se apoiem umas às outras dificilmente será mais alguém.

Ainda me lembro destes rapazes com meia dúzia de pêlos na cara a darem os primeiros passos na música, hoje em dia e passados já 7 anos já foram responsáveis por um festival que trouxe cá pela primeira vez os conhecidos Mata Ratos, criaram uma editora e contam já com 5 registos de estúdio. Atitude e perseverança é o que leva estes punkers a já terem feito mais pela música do que muitos de nós que já estamos ligados a este meio há mais tempo. Ah pois é!

Concerto The Chamber


No próximo dia 07 de Janeiro, a Academia de Juventude da Ilha Terceira apresenta:

20h00 | Exposição Fotográfica ALMA de André Pimentel
22h00 | Concerto THE CHAMBER - projecto musical de João Félix

Artistas Residentes

André Pimentel –  nasceu em Angra do Heroísmo a 6 de Abril de 1989. Desde cedo demonstrou um apelativo interesse por fotografia dando, assim, os primeiros passos no mundo das Artes.Actualmente estudante universitário de Design de Comunicação na Escola Superior de Artes e Design, André Pimentel completou o Ensino Secundário em Angra do Heroísmo na Escola Secundária Jerónimo Emiliano e, em 2007, frequentou o Curso de Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Além da sua participação na exposição "Acreditar na Fotografia", vários dos seus trabalhos anteriores constam de Revistas, Páginas Electrónicas e Jornais ligados à Festa Brava, e foram também já expostos em diversos Certames, Feiras e Mostras na Ilha Terceira.

João Félix - nasceu em Angra do Heroísmo, em 1990. Tinha cerca de cinco anos de idade quando começou a familiarizar-se com o som dos Beatles, e já então tinha os seus temas favoritos, mas foi por volta dos dez que começou a ouvir música com atenção e interesse. No Natal de 2002 teve a sua primeira guitarra, e assim que aprendeu os primeiros acordes, não demorou a aventurar-se na escrita (quase compulsiva) de canções. Além dos Beatles, inspiravam-no também a música de Bob Dylan e os Pink Floyd da era de Syd Barrett. Assim, foi construindo um repertório musical que hoje conta com um grande número de canções. Ao longo dos anos, tem descoberto também a música de Nick Drake, Elliott Smith e Jeff Buckley, decisivamente influentes na composição dos seus temas. Actualmente, João Félix apresenta-se com o projecto musical The Chamber, e tem em vista um primeiro álbum que contará com uma selecção cuidadosa das muitas canções que tem escrito até agora.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Apresentação Gaia EP - Resposta Simples


Será pelas 15:00 do próximo domingo, que plenos de espírito natalício os Resposta Simples irão apresentar o seu EP Gaia na Academia de Juventude da Ilha Terceira, estando a abertura do espectáculo a cargo dos  também angrenses System Failure. 
Gaia, o novo disco do trio açoriano, é o primeiro vinil Punk Hardcore a ser editado nos Açores, da primeira e única banda de Punk Hardcore do arquipélago.
O EP é resultado de uma mistura energética, inspirada pelas raízes do Punk, Hardcore e Crust Português da velha escola, com um toque de Música do Mundo, assim afirma o conjunto em nota de imprensa.
"Música sem barreiras, mas com consciência. Gaia aborda uma tomada de consciência ambiental, nestes tempos de encruzilhada moral.", rematam.
A edição é limitada a 400 exemplares, estando a edição a cargo de uma coligação transatlântica - Anoise Records, Infected Records DIY, Juicy Records, M.C.S. Records e Selfish Satan Records – e conta com apoios do Governo Regional dos Açores entre outras entidades autárquicas e culturais da região.
A entrada custa 2,50 respostas, ou 5,00 respostas com direito a oferta de vinil.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

MUSICOFILIA DE REGRESSO!

Olá a todos.
Antes de mais, muito obrigado a todos os quantos vão passando por este espaço, algo que constatei ao acompanhar as estatísticas do blog. Já se completaram dois anos desde que parei de escrever, tendo feito somente uma review das Sanjoaninas 2010 e é bom saber que vão passando por aqui para ver se há novidades. Pois bem, a partir de agora haverá!
E quem me convenceu foi o meu camarada, agora regressado dos "States", Freddy. E será ele quem irá executar e gerir o site do Musicofilia. Sim, o blog vai desaparecer e dará lugar a um site, o que tornará este trabalho mais intuitivo, isto durante o próximo mês.
Outra novidade é que não vou fazê-lo sozinho, tal como há dois anos quando fiz um interregno continuo com pouco tempo para escrever e acompanhar a música com a dignidade que o assunto merece, logo, convidei alguns amigos para colaborarem. Desde já posso informar que o Musicofilia conta com a ajuda e os conhecimentos do Miguel Aguiar, do Lino e do Paulo Lemos. Desde já o meu obrigado a eles por aceitarem o desafio. Tenho intenção de convidar mais uma ou duas pessoas, mas tudo a seu tempo.
Peço que sejam pacientes com o conteúdo deste blog, pois realmente está muito desactualizado e tentarei rever alguns pontos importantes, como é a agenda, por exemplo, de modo a que não pareça tão 2008...
Entretanto vamo-nos vendo por aqui ou em qualquer um concerto...
Até já.

segunda-feira, julho 05, 2010

Mariza e James coroam Sanjoaninas 2010

Texto - Miguel Linhares


Já não escrevia aqui desde 2 de Julho de 2008, há dois anos. Deixei de o fazer por necessitar de algum descanso e por motivos pessoais e profissionais. No entanto o bichinho fica sempre cá dentro e por vezes temos mesmo que retomar.
Devo confessar que desta vez nem foi bem por essa razão, mas sim pelo facto de ter visto uma pobre e modesta cobertura jornalística dos eventos musicais das Sanjoaninas 2010, em qualquer meio de comunicação social e/ou na blogosfera. Mas a realidade é que neste país e nesta terra o futebol reina e a sociedade em geral não é culturalmente activa e, por isso mesmo, não somos a Finlândia ou a Suécia.
Como tenho direito a também expressar as minhas opiniões e a relatar o que vi e ouvi – e faço-o há mais de 7 anos neste e em outros meios - é que decidi trazer de novo este espaço à vossa companhia, ou não ocupasse a música uma grande parte da minha vida.
No início das festas esta não era a minha intenção e daí não ter acompanhado todos os espectáculos ao pormenor. Também, como adquiri a pulseira que deu acesso a todos os espectáculos no Bailão, acabei por não estar presente em outros palcos que, pelo que me disseram, tiveram concertos fantásticos, como é o caso do Pátio da Alfândega.
Embora tenha iniciado esta página em jeito de crónica, falarei dos espectáculos com a maior imparcialidade e justeza possível. Até porque embora ouça e admire imensos géneros musicais, tenho as minhas preferências e dentro destas não havia nenhum artista no palco principal das festas, excepção feita talvez aos Goma, logo, mais imparcial é impossível.
Devido ao reduzido espaço aqui disponível terei que sintetizar e poupar nos caracteres. Vamos então por dias:


DIA 19 – FLÁVIO CRISTÓVAM & JAMANDIZEN

Este artista angrense foi vencedor do concurso AngraRock 2009 e do Vodafone Ones to Watch – área Pop – que premeia os melhores novos artistas da comunidade MySpace e tem vindo a desenvolver uma carreira muito interessante captando novas sonoridades um pouco alheias ao público açoriano mais jovem. Acompanhado pelos Jamandizen – Raul Cardoso, João Mendes e Timmy Lima – e por não mais do que duas centenas de pessoas no público, este artista demonstrou grande argúcia na composição dos seus temas, habilidade vocal e capacidade de interpretação ao vivo. Destaque para o tema “The closing doors” que já roda há algum tempo em algumas rádios regionais e para duas covers muito próprias de Xutos e Pontapés e Ornatos Violeta.
O espectáculo durou pouco mais de uma hora e pecou pela pouca afluência de público só explicada pelo facto de os espectáculos dos artistas locais também serem pagos e a dez euros (?!).


DIA 20 – MARIZA

Não podia ser melhor. Estamos a falar da (talvez) melhor artista nacional da actualidade e um dos poucos nomes nacionais que espalha a língua e cultura portuguesa de Los Angeles a Tókio. Sendo já um marco na world music mundial, Mariza captava atenções para o espectáculo em Angra e durante pouco mais de duas horas deu, se não o melhor, pelo menos um dos melhores espectáculos no Bailão. De entre os imensos temas do repertório da artista, “Rosa branca” e o arrepiante “Gente da minha terra” acabaram por captar os maiores aplausos, para além de no final ter interpretado, surpreendentemente, o tema “Come as you are” dos Nirvana. Soberbo.
Acompanhada por músicos de excelência, com destaque para Vicky, que é somente um dos nomes maiores em Portugal da percussão, Mariza primou por uma atitude muito positiva, enérgica e extremamente interactiva com o público que não enchia por completo o Bailão. Cantou em crioulo, cantou temas de Amália Rodrigues e Rui Veloso e falou do seu percurso. Embora seja o espectáculo indicado para um recinto coberto, Mariza acabou por provar a sua polivalência – tal como já o tinha feito no Rock in Rio – e deixou uma certa “saudade”, ou não fosse o fado primariamente isso mesmo!


DIA 21 – RUI VELOSO

É um dos mais conceituados artistas portugueses e vem da velha escola do rock e do blues, completando este ano 30 anos de carreira. Serão muitos os grandes temas do artista para aqui enumerar, no entanto ninguém ficou impune á mestria do artista que dedicou parte do espectáculo aos temas acústicos e às baladas, acabando obviamente por passar pelo rock e pelo blues e oferecendo todos os seus grandes êxitos ao público angrense que, mais uma vez, ocupava o Bailão por metade.
Secção rítmica determinante com destaque para o baixista Zé Nabo, figura grande do rock nacional, decoração intimista e bem conseguida e uma voz que continua quente, segura e com sotaque do norte. Excelente momento das Sanjoaninas 2010.


DIA 22 – JOEL MOURA / GOMA

Tendo sido esta uma das noites menos concorridas pelo público ao recinto do Bailão, as luzes acenderam-se ao som do veterano Joel Moura, acompanhado pela sua banda composta por Kit, Paulo Cunha e Tiago Lima. Som muito característico, inspirado algures na primeira metade dos anos oitenta, este continua a ser um dos artistas mais originais da música açoriana. E não há meio-termo: ou adora-se ou odeia-se. “Rapariga de hollywood” já arrisca ser um dos hinos dos concertos de Joel Moura, artista sempre muito fiel à sua ideologia e à sua percepção de música. Nota positiva também para a componente visual que acompanha todo o concerto.
Os Goma já subiram ao palco do Bailão sagrados vencedores do concurso AngraRock 2010. Nos três anos da sua existência, os Goma já mostraram ser um dos melhores e mais coesos projectos açorianos, tendo mesmo já tocado em variados eventos em várias ilhas. Com uma fileira de músicos muito experimentados e maduros, os Goma tem uma sonoridade de agradável audição, primando a muito boa composição lírica em português, interpretada por uma voz que nos faz lembrar… Sobredotados. Tiveram aqui uma das melhores prestações ao vivo e foram – apesar de santos da casa não fazerem milagres – um dos melhores espectáculos das Sanjoaninas 2010. Tal como Flávio Cristóvam & Jamandizen, sofreram pelo facto do espectáculo ter um custo de dez euros, valor um pouco elevado para artistas locais, apesar da inegável qualidade dos mesmos…


Dia 24 – D´ZRT

Angélico, Edmundo, Vintém e Cifrão já se consagraram como ídolos dos adolescentes portugueses e depois de um breve interregno na carreira voltaram à carga pelos palcos do país. Uma autêntica máquina de fazer dinheiro, somam mais de dez platinas no conjunto dos três álbuns de estúdio. No entanto a noite em Angra foi um pouco fria e sem a receptividade de outros tempos. Os adolescentes não eram muitos, no entanto gritavam imenso. Os temas “Feeling” e “Para mim tanto faz”, dois dos singles mais conhecidos do conjunto, acabaram por ser os pontos altos do concerto com direito a encore, a muita dança, a um excesso de protagonismo de Angélico, aos mortais de Cifrão (um deles não conseguido…) e a uma irreverência geral já habitual. Referência mais que positiva para a secção rítmica baixo/bateria, de grande qualidade e com a predominância do baixista brasileiro a viver em Portugal, Ciro Cruz.


DIA 25 – FLOW 212

Esta recente dupla do Hip-hop nacional deu “um salto” na carreira pela altura do lançamento do primeiro single e videoclip “Tá hot” em que figura a conhecida Rita Pereira. Vagueiam facilmente pelo reggaeton, kuduro e kizomba, mostrando uma variedade de influências. No entanto demonstraram imensa fragilidade em palco, alguma imaturidade musical e pouca cumplicidade, para além do facto de terem um repertório curtíssimo. Actuaram 35 minutos e voltaram para repetir – durante outros tantos 35 minutos – alguns dos temas que já tinham cantado e para uma justaposição de alguns temas conhecidos da house e do hip-hop mundial (o que, como já devem ter adivinhado, passou por Black Eye Peas, como quase tudo actualmente…). E sobre eles está tudo dito.
Com eles cantou uma música o DJ Ângelo Rodrigues (actor de variadas séries, com destaque para Morangos com Açúcar) que entrou em cena ainda durante a actuação dos Flow 212 fazendo não de DJ, mas de MD (mete discos) e MC. Não fosse o repertório vastamente conhecido que escolheu (Black Eye Peas – claro – e David Guetta, por exemplo) e esta noite seria para esquecer, no entanto as pessoas só queriam era dançar. Transições e mixs neste artista têm um conceito diferente.
O termo certo para um deejay que fala ou canta por cima das músicas gravadas – o que ele estava a tentar fazer - é um selector, algo que Ângelo Rodrigues não tem a mínima noção como se faz. Por ser sexta-feira esta foi das noites com mais público no recinto, dançando até de madrugada.


DIA 26 – JAMES

Eram os mais desejados no palco do Bailão. A mítica banda de Manchester teve nos anos noventa a sua época de ouro, criando hinos da pop mundial e enchendo estádios em quase todos os continentes. Depois do regresso em 2008, os James tem actuado por toda a Europa e Estados Unidos promovendo o último curta duração “The night before”.
11 horas em ponto e lá estavam eles arrancando com um repertório recheado de sucessos como “Born of frustration”, “Sometimes” ou “Say something”. Muitos dos temas tocados saíram dos álbuns “Seven” e “Laid”, de 1992 e 1993, respectivamente, os dois álbuns mais bem sucedidos em vendas do colectivo britânico que, curiosamente, nunca conseguiu atingir o nº 1 da tabela de vendas. O Bailão estava quase cheio, aplaudiu e saltou efusivamente com uma banda que se entregou claramente à energia e carinho do público, convidando algumas pessoas a subirem ao palco (e outras convidando-se!) quase no final. Pode-se afirmar que – a par de Paradise Lost e Scorpions – foi dos espectáculos mais profissionais que se presenciou na Terceira.
Apesar da idade já avançada dos membros da banda, a qualidade técnica, a musicalidade e a cumplicidade foram evidentes. Nota mais que positiva para a excelente capacidade vocal que Tim Booth ainda preserva, chegando por vezes – no mínimo - a duas oitavas e sustendo por largos segundos sem vacilar. É assim que se fazem grandes concertos.


DJ´s

Nada a dizer, pois não os houve. Houve animadores. Para além do comentário já feito ao Ângelo Rodrigues, pouco mais há a dizer, embora os parabéns nesta vertente tenham que ir para Albano que, principalmente no sábado, dia 26, fez a animação pós concerto na perfeição passando por sons mais dançantes, pelo rock e pelo pop. Aposta muito fraca nos DJ´s, daí talvez a presença muito reduzida de jovens /adolescentes no recinto que, maioritariamente, gostam destas sonoridades e não de bandas mainstream.


NOTAS FINAIS / OPINIÃO

- Para o primeiro ano com espectáculos pagos nas Sanjoaninas julgo que o balanço deverá ser positivo, embora só a organização possa nos revelar os números e os valores depois de efectuado o relatório. Estou completamente de acordo com esta nova face das Sanjoaninas que só peca por vir tarde.
Só assim se garante bons espectáculos e artistas de nome internacional nestas festividades – sem que haja balanço final negativo, ou pelo menos que haja algum retorno – embora o preço de acesso ao recinto seja exagerado para o ano zero, mais ainda se comparado com as outras grandes festas da nossa ilha que já o fazem há seis anos, com preços mais baixos e com um cartaz muito mais completo, com uma oferta imensa e de maior qualidade de música electrónica, todos os dias que é o que realmente mantém o recinto cheio até de manhã, que vende pulseiras e dá lucro aos bares.
No entanto julgo que o caminho é este e apesar da polémica – normal nestas situações – o povo terceirense vai-se habituar a pagar como acontece em todo o lado.

- Preço elevadíssimo para a pulseira única nos dias dos artistas locais. Dez euros é muito caro, só lá vai quem tem o passe dos oito dias, os amigos e os familiares. Estes espectáculos têm que ter um preço simbólico, senão mesmo gratuito. Isto não ajuda em nada os artistas da casa!

- Noite de S. João excelente no Bailão, muito morna na rua de S. João…

- Boa nota para o PA, sistema luminoso e para a qualidade do som em todos os espectáculos.

- Boa coordenação da segurança no recinto, embora a sua vedação necessite ser repensada e melhorada. Muita gente a ver o espectáculo à borla e a tentar saltar.

- Coloco a questão: Diz-se Box Music, ou Music Box? É porque a mim só um me parece estar correcto e foi o que ouvi e li menos vezes…

in jornal "A União", 5 de Julho, 2010

quarta-feira, junho 23, 2010

Acho que para a semana vou escrever aqui...

Depois da minha última publicação - a 28 de Dezembro de 2008 - acho que vou deixar algumas linhas aqui neste vosso espaço que, teimosamente, continua a ter visitas, facto para o qual desde já agradeço.

É que estas Sanjoaninas tem tido muitos acontecimentos bons a nível musical, mas também tem sido um ano de polémicas e, sinceramente, depois de ler as (poucas) reportagens dos jornais locais só me apetece gritar!

Que falta de argúcia..., pela vossa saúde.

Ainda vou pensar durante o resto das festas, mas sim, acho que o Musicofilia vai voltar...

domingo, novembro 16, 2008

Alma Rasgada prepara 1º trabalho

Alma Rasgada trata-se de um projecto que conjuga música e poesia declamada em estilo “Spoken Word”.
Escritos de João Goulart, locutor da Antena-1/Açores declamados pelo próprio num diálogo que junta ainda três músicos nos concertos ao vivo.
Joe Alvernaz na guitarra a alma musical do projecto, Eddy Alvernaz na viola baixo e Pedro Correia na bateria.
Em fase de elaboração do CD, a banda actua ao vivo com uma base musical de improviso e interacção com a declamação. O disco está ser produzido em Lisboa por Joe Alvernaz, havendo já dois temas de demonstração do projecto a circular, “Inverno de Emoções” e “Acredita em ti”.
O disco terá participações de António Manuel Ribeiro dos “UHF”, Zeca Medeiros e Fernando Girão, três vozes incontornáveis da música e da palavra em português.
Alma Rasgada uma forma diferente de abordar a música e a palavra com sentido poético, fazendo chegar a poesia aos mais novos e o Rock aos menos novos abordando amor, desamor, morte, vida, desespero emocional, adição, esperança, sonhos perdidos, sonhos encontrados.
Estrearam-se ao vivo em S. Miguel e actuam no final deste mês na ilha do Faial, ilha, epicentro das suas vidas, embora João Goulart resida em S. Miguel e Joe Alvernaz em Lisboa.
Este músico nascido nos Estados Unidos estudou guitarra no Hot Club de Portugal, sendo actualmente professor, executante, compositor e produtor.
Tem de momento alguns trabalhos entre mãos de onde se destaca o novo disco de Fernando Girão.
Esta ideia de João Goulart remonta há cerca de quatro anos tendo na altura produzido alguns temas com Emanuel Bettencourt.
O lado gráfico do projecto conta com a ajuda de Paulo Bettencourt e há a intenção de adicionar um complemento multimédia ao projecto, criando-se um espectáculo de música improvisada e poesia.
Com a saída do disco os concertos passarão a outro formato, nunca excluindo o recurso ao improviso, um dos principais motores de desenvolvimento das capacidades artísticas e não só, do ser humano.

sexta-feira, outubro 10, 2008

Votação para AngraRock 2009

A página da Internet do AngraRock (www.angrarock.com) está a promover uma votação sobre as bandas que devem ser convidadas para a 10ª edição do Festival AngraRock, que terá lugar no Recinto do Bailão de 4 a 6 de Setembro de 2009.
Para celebrar a passagem dos 10 anos do Festival AngraRock a organização pretende reeditar alguns dos momentos mais vibrantes do evento, convidando algumas das bandas nacionais e estrangeiras que já passaram pelo palco do recinto do Bailão.
As bandas a votação são as seguintes:

BANDAS NACIONAIS
Clã
Pólo Norte
Moonspell
Tarantula
The Temple
GNR
Blasted Machanism
RAMP
Da Weasel
David Fonseca
Morbid Death
Stream

BANDAS ESTRANGEIRAS
Gene Loves Jezebel (Inglaterra)
Killing Miranda (Inglaterra)
Paradise Lost (Inglaterra)
Reamonn (Alemanha)
Exilia (Itália)
Charon (Findlândia)
Deep Insigth (Findlândia)
Liquido (Alemanha)
Die Happy (Alemanha)
Suzerain (Inglaterra)
Los Hermanos (Brasil)
Brian Melo (Canadá)

terça-feira, agosto 26, 2008

Stand by...

Camaradas, antes de mais quero-vos pedir desculpa por este tempo todo sem aqui vir desde que se realizou o Festival Azure.

Devo confessar que fiquei extremamente cansado depois da realização do Festival, o que me fez ponderar todos os aspectos da minha vida, todos os projectos que estou envolvido e, claro, a minha vida profissional que apesar de não ser muito desgastante acaba por ser o ponto mais importante e que merece mais atenção.

Fisicamente aguenta-se e a pressão só dura mesmo nos dias (nada que não se resolva posteriormente com umas boas horas de sono), mas mentalmente o desgaste é violento e deixa algumas sequelas que por vezes teimam em não desaparecer.

Não só o Azure me ocupa muito tempo (um ano inteiro) mas muitos outros projectos enquanto membro directivo da Associação Jaçor, enquanto pessoa envolvida de vontade própria na música e na organização de espectáculos. Tudo isto ocupa-me muito tempo, exige muita da minha atenção e diminui-me a qualidade de vida e o tempo disponível para passar com amigos e família.

Além de tudo isto, os projectos que me são apresentados e/ou para os quais sou convidado começam a ser de uma dimensão e importância maior do que o que talvez esperasse há uma ano ou dois. Por um lado prova-me que tenho feito um bom trabalho com os meus colegas e que as pessoas tem reparado nisso - o que me deixa orgulhoso, obviamente - mas por outro faz-me reflectir ainda mais no meu tempo disponível para tudo isso, obrigando-me a escolher.

Todos estes parâmetros aliados a alguns problemas de saúde graves com familiares meus fazem-me estar aqui, agora, a dizer-vos que tenho que começar a optar por algumas das coisas que posso realmente fazer (querer, quero todas, poder, só posso algumas).

E este trabalho que tenho humildemente estado a fazer aqui no Musicofilia (há 5 anos em papel e há 4 anos na Internet) vai ser um dos pontos que vou abandonar por agora (assim como as crónicas semanais na Antena 1 - Açores no programa "A Noite"). Embora me dê imenso prazer escrever e falar sobre música, tenho que reconhecer que esta é uma das actividades que terei que recusar. Até porque, de algum tempo para cá, já não fazia um trabalho digno e completo como os artistas merecem devido, exactamente, ao pouco tempo disponível. Neste momento já não se trata somente de tempo, mas também de disponibilidade mental.

Pelo menos na ilha Terceira sei que actualmente ninguém se dedica a este tipo de jornalismo e este era o único espaço dedicado à música, mas não poderei continuar a fazê-lo. Espero sinceramente que alguém o queira fazer e que apareça em breve, promovendo os nossos artistas, os nossos eventos e os nossos espaços. Era de real importância que tudo isto não morresse assim!

Não sei se vou voltar a fazê-lo, mas sei que por agora tenho que parar. Na Internet vou manter o site activo e, eventualmente, deixarei algum cartaz, alguma notícia ou actualização de agenda, mas de resto não me comprometo com mais nada.

Agradeço a todos os que me tem apoiado ao longo deste tempo (são muitos mesmo).
Vou continuar ligado à música e ao vosso lado, mas por agora está-se-me a faltar tinta na caneta e vou ter de parar a escrita por uns tempinhos...

Até já camaradas!

segunda-feira, julho 14, 2008

Vou estar ausente...

Camaradas, vou estar ausente do Musicofilia nas próximas duas semanas, pelo menos.
Tenho o Festival Azure para colocar de pé e o trabalho é mais que muito, pelo que não vou ter tempo de estar aqui. Se, eventualmente, acontecer algo que mereça algum destaque mais especial e eu tenha oportunidade, venho cá deixar-vos notícias. Caso contrário, vejo-os no Azure.
Abraço a todos.

sábado, julho 05, 2008

Concertos só para alguns gostos.

Texto - Miguel Linhares

Esta semana pouco há para falar. Tudo o que havia para dizer está no artigo aqui ao lado, as Sanjoaninas. É uma semana em que as noites vão dar ao mesmo sítio, mesmo quando sabemos que os concertos não são muito interessantes.
Não pretendo estar aqui a apontar defeitos ou aspectos menos bons nesse aspecto. Temos que respeitar o trabalho e empenho dos outros. Enquanto parte integrante do público e enquanto angrense prefiro guardar essas conversas para o meu grupo de amigos, pois ninguém ganha nada com comentários desse género. Se alguém estiver mesmo interessado em saber a minha opinião sobre alguns aspectos dos espectáculos das Sanjoaninas, então aí talvez torne pública a minha posição, ou, se for o caso, dar-lha-ei a essa pessoa interessada.
Mas existem pontos que tem que ser mencionados e o único facto que pretendo e continuo a frisar – e julgo ser importante – é um rejuvenescimento na organização dos espectáculos musicais e seu figurino nas festas. A profissionalização, se possível. Esta experiência já foi testada aqui bem perto de nós em outras festas de grande dimensão e está a dar os seus frutos. E aposto que sai mais barato!
Não se pode continuar a fazer as Sanjoaninas só ao gosto de alguns. Há que inovar, ser dinâmico, perceber a cultura como um todo, entender a música como uma arte única, caracterizá-la tendo em conta o tipo de festa, apontá-la eficazmente ao público e – o mais importante – dar um lugar merecido aos artistas locais, neste caso às bandas, pois os Dj´s, pelo menos este ano, foram reis e senhores dos pratos (e tiveram quase todos nota positiva).
Não se pode continuar a ignorar os artistas locais, alguns dos quais só conseguem realmente ter reconhecimento fora da ilha e no continente, por se arriscarem nesses meios, visto as grandes festas da nossa ilha continuarem a ignorá-los. Os palcos já escasseiam, não é preciso cortar-lhes mais as pernas.
E caso isso seja feito, que não sejam sempre as mesmas bandas, ano sim, ano não! Existem imensos jovens com talento na nossa ilha que merecem mais respeito e consideração. Além disso, temos uma grande variedade musical na nossa ilha, desde pop e acústico, até ao metal, passando pelo rock, punk, hard, alternativo, experimental… escolham o género. E existe público para esses artistas, utilizando a fórmula certa e não os atirando para qualquer palco, a qualquer hora. Assim seria (como já aconteceu em anos anteriores) um fracasso para ambas as partes, artistas e organização. É só pensarem um bocadinho, munidos de boa vontade e sensibilidade cultural que tudo dá certo. Vamos ver se em 2009 muda alguma coisa…

in jornal "A União", 2 de Julho, 2008

Sanjoaninas

Sanjoaninas – Parte 1 (24 de Junho)

Texto – Miguel Linhares / Fotos – Edson Areias

Chegaram mais umas Sanjoaninas. Milhares de pessoas acorrem ao centro da cidade de Angra do Heroísmo para ver as maiores festas. Independentemente do que cada um gosta de mais ver por lá, a nós interessa a música.
É quase impossível ver todos os espectáculos que ocorrem nos três palcos espalhados pela cidade, pelo que há que fazer uma pré selecção dos que achamos que queremos mesmo ver.
Mas desde já e passados 4 dias de festa já é possível fazer um balanço do que por lá aconteceu. E não é justo começar sem mencionar as actuações de Kumpania Algazarra, tanto na Rua de S. João, fazendo animação de rua na própria noite de S. João, como no dia a seguir, ou seja ontem, no palco da Alfândega.
Muito influenciados pelo som Gipsy e coladinhos a Emir Kusturica, este colectivo português já tinha deixado boas impressões nas Festas da Praia no ano passado.
Na noite de S. João foram arrebatadores. A rua parecia uma pista de dança, muito sui generis, diga-se, ao som dos metais, da batida rápida e do megafone dos Kumpania. Começou ás 3 da manhã andou pela cidade e, dizem, só acabou pelas 8 na porta do hotel, sempre com público a segui-los. Na noite passada, já em formato de palco, deram mais um excelente concerto, com muita energia, extrema interactividade com o público e uma sonoridade que realmente prima pela excelência.
Grande destaque também teve os Rosa Negra, banda que já cá tinha estado em 2007 no Festival Azure e no Auditório do Ramo Grande. Esta – a par dos Kumpania Algazarra – também uma grande aposta da organização. Aqui o fado anda por caminhos que não tinham sido percorridos, sonoridades longínquas à voz portuguesa, mas que aqui fundem-se na perfeição. Os Rosa Negra mereciam o palco principal das festas.
Também de notar as boas prestações de Jorge Palma no sábado, no palco do Porto de Pipas e dos terceirenses RIP e Strëam no domingo. Uma nota engraçada teve o guitarrista de RIP, Kit, que no final do concerto e entre os agradecimentos vangloriou-se de serem a única banda na Terceira que arriscava fazer músicas originais em português. Erro crasso para um músico com experiência e que, supostamente, devia conhecer o pequeno meio musical terceirense. Esqueceu-se dos companheiros de agência, os Goma, que existem há dois anos e também fazem-no (e muito bem, diga-se), corrigindo esse pormenor logo a seguir. Mas esqueceu-se de muitas outras.
Esqueceu-se dos Manifesto que fazem-no há 11 anos. Esqueceu-se dos Resposta Simples que fazem-nos há 7 anos, dos Amnnezia que tem pelo menos duas músicas originais em Português, dos Anéis de Marfim, de João da Ilha (que tem actuado mais por Setúbal, mas que neste mês de Julho já actua cá na ilha), Fora de Mão…
Um apontamento muito engraçado de Kit.
Para finalizar esta primeira parte das Sanjoaninas, mencionar o concerto de ontem à noite da americana Lisa Doby, uma artista desconhecida entre a maioria do público, mas que rapidamente cativou os presentes através da sua alegria e muito boa voz, acompanhada de excelentes músicos. Muito soul nesta artista. Falta ainda ver, entre muitos outros, Clã, Luís Represas, Orquestra AngraJazz e Xaile.

Sanjoaninas – Parte 2 (30 de Junho)

Texto – Miguel Linhares / Fotos – Pedro Costa/Fotaçor

Finalizadas que estão as festas Sanjoaninas deste ano, convém rever um pouco o que se passou a nível musical pelos variados palcos da cidade. Na primeira parte desta crónica – escrita no dia 24 de Junho, ou seja, a meio das festas – ficou vincado a boa actuação de alguns dos artistas que passaram pelo palco do Porto de Pipas e pela Alfândega, essencialmente.
Do que se passou posteriormente mais um pouco há a apontar e que merece destaque.
O concerto dos Anjos teve uma das maiores enchentes no cais da cidade, mais ainda tendo em conta que era uma quarta-feira. Musicalmente nada de novo e o público era composto maioritariamente por adolescentes – algumas mesmo histéricas – mas a nível visual e estético a banda esmerou-se.
Xaile foi uma das boas surpresas deste cartaz. Banda com três front ladies, dinâmicas, com boas vocalizações e uma sonoridade realmente interessante. Muitas influências e fusões no som de Xaile, havendo talvez predominância pela cultura musical celta, mas dando mais umas voltas ao mundo.
Clã, sem sombra de dúvida, foi o melhor espectáculo no palco principal das festas. Apesar do som dos Clã poder suscitar opiniões diversas, a verdade é que a banda domina o palco e a vocalista, Manuela Azevedo, é uma força da natureza. Energia q.b., sentimento e cumplicidade são condimentos presentes na actuação dos Clã que ficou na memória nos terceirenses.
No sábado subiu ao palco o veterano Luís Represas que confirmou o que se esperava. Uma actuação profissional, directa ao público, juntando temas novos e alguns clássicos da música portuguesa da autoria de um dos mais conceituados artistas da música ligeira.
Resta mencionar a relativa qualidade incluída no cartaz deste ano, embora tenha faltado um nome internacional de peso. Lisa Doby foi fantástica, mas era um nome muito desconhecido para o público local, o que se reflectiu na quantidade de pessoas que presenciavam o espectáculo, muito poucas.
A nível de Dj´s todos os créditos devem ir para os artistas locais que foram quem fez a festa. Nomes grandes? Poucos ou nenhuns, excepção feita ao portuense Overule que nem teve uma actuação tão soberba. O mérito tem que ir para os Dj´s locais que estiveram bem na sua maioria, apesar de ainda haver alguns “curiosos” nesta arte que – apesar de pensarem o contrário – não é para todos.
O facto do recinto dos principais eventos musicais ser agora no Porto de Pipas – em detrimento do Bailão – é uma opção muito discutível em todos aspectos, mas que cada um deverá tirar a sua conclusão.
Para o ano há mais!

in jornal "A União", 2 de Julho, 2008
"A Noite" - RDP-Açores (1ª parte a 25 de Junho, 2ª parte a 2 de Julho)