quinta-feira, julho 13, 2006

Capital açoriana da cultura?!

Texto - Miguel Linhares

Angra do Heroísmo – capital açoriana da cultura. Isto é algo que já não faz muito sentido e não é, de todo, verdade, infelizmente! Já o foi, neste momento e por mais que nos custe é Ponta Delgada, por tudo o que acontece semanalmente nesta cidade. Para além de ter excelentes casas de espectáculo, como o Coliseu e o Teatro Micaelense, possui boas salas de exposições, cinema, teatro e por aqui passam inúmeros artistas de todas as vertentes culturais e de todo o mundo. Foram criadas empresas que são responsáveis por cada uma destas casas, ou espaços, de modo a gerirem convenientemente a actividade artística e a tirar lucro delas. No fundo entregou-se a pessoas capazes, a “exploração” da actividade cultural na ilha, com as câmaras municipais a encabeçarem este movimento. É isto que falta, por exemplo, ao Teatro Angrense. Fico triste ao ver o abandono que aquele teatro foi relegado e pela fraca promoção de que é alvo. No Centro Cultural, vá lá, isto já não é tão notório, mas sinto que falta sangue na guelra de quem conduz os destinos daquela casa. Digo isto enquanto angrense, minimamente informado e preocupado com a inactividade cultural da nossa cidade. Dinheiro gera dinheiro, portanto se o município separar inicialmente verbas que sirvam para impulsionar as actividades – bem escolhidas, atenção – o retorno será garantido. É assim que funciona. E depois há mais uma coisa, não pode se entregar, como já se viu, os destinos destes lugares a eruditos. Não funciona! Há que exigir dinâmica, juventude, polivalência e conhecimento abrangente de causa. Senão colocam-se artistas e actividades em cartaz que só interessam a meia dúzia de Srs. Doutores e mais uns quantos curiosos. E isso não dá dinheiro de certeza. Há que aliar o factor comercial com o factor qualidade. E existem inúmeras possibilidades nessa área. É preciso é conhecê-las, antevê-las, fazê-las gerarem lucros e ao mesmo tempo acordar a cidade para a cultura e para o entretenimento. E ai sim! Poderemos novamente nos orgulhar de sermos a capital açoriana da cultura. Até lá, vamos ter que continuar atrás de S. Miguel em mais este assunto…

in jornal "A União" de 12 de Julho de 2006

4 comentários:

M disse...

"(...)não pode se entregar, como já se viu, os destinos destes lugares a eruditos. Não funciona!"

Infelizmente, não é só na Ilha Terceira que isso acontece. Recentemente tivemos o caso da Casa da Música em que a gestão de Pedro Burmester foi catastrófica.

Miguel Linhares disse...

Pois, mas também existem bons exemplos de gerência cultural, acho que o Ramo Grande na Praia da Vitória é exemplo disso...

nihildom2004 disse...

acho que a grande questão coloca-se por não existir qualquer tipo de política cultural em Angra. Isto é, qualquer gaja ou gajo pensa que percebe de gestão de espaços culturais e é nisto que dá: para além de enredos pessoais, funcionários a ganhar balúrdios com material do Teatro Angrense ou Centro Cultural, o Teatro Angrense fechado e o Centro Cultural às moscas.

paciência, quisemos, votámos, agora mamamos como lindos meninos que somos....

Odissaeus disse...

Angra nunca foi uma capital cultural. Uma capital cultural ( e no fim de contas só os parolos precisam de se afirmar e rotular o que fazem) vai bem mais além do que as actividades côxas e pouco criativas promovidas pela edilidade angrense de há muitos anos a esta parte. E não passa também por uma rendição ao capital e ao óbvio. O La Féria não é opção! Uma boa gestão cultural não passa apenas por uma boa programação ou por uma gestão eficiente dos equipamentos. Passa também pela capacidade de estimular quem deles usufrui e abrir caminho a uma produção local com qualidade, coisa que há muitas décadas não se encontra pelas ilhas ( nem mesmo em S. Miguel encontramos esses projectos!). Angra padece de um orgulho parolo e se não é capaz de se estimar enquanto cidade ( o desleixo da cidade está bem patente!) como poderia ser alguma coisa cultural?
A política cultural da cidade está espelhada no abandono da própria urbe.